El gaucho e Makunaima: dois mitos transfronteiriços (Ricardo Almeida)


A fotografia del gaucho é do fronteiriço Leandro Abreu da Silveira, e a de Grünberg com os indígenas foi extraída do filme O Abraço da Serpente (sobre as memórias de viagem de Theodor Koch-Grünberg).

Ricardo Almeida

Vivieron su destino como en un sueño,
sin saber quienes eran o qué eran.
Tal vez lo mismo nos ocurre a nosotros.
Los Gauchos – Jorge Luis Borges

Sou pedra pintada!
Buriti, bacaba!
Caracaranã, farinha d’água, tucumã!
Curumin te espera, Cunhatã!
Macunaimando – Zeca Preto e Neuber Uchôa

Tanto Makunaima (pronuncia-se Makunáima) como el gaucho fazem parte de mitologias transfronteiriças. O primeiro pertence à cultura das comunidades indígenas Pemons¹ que vivem na fronteira do Brasil, com a Venezuela e a Guiana (ex-Guiana Inglesa), enquanto o segundo povoa o imaginário do pampa brasileiro, uruguaio e argentino. No entanto, Makunaima foi transformado pelo escritor brasileiro Mário de Andrade em Macunaíma, um herói nacional sem nenhum caráter, uma fusão daquilo que o escritor caracterizava como sendo as principais características do povo brasileiro, enquanto o termo “gaúcho” foi adotado pelos sul-riograndenses como um gentílico regional, sinônimo de bravura, perseverança e um modelo a toda Terra.

Essas duas reconstruções simbólicas foram fruto do pensamento nacionalista do século 19, que vigorou e ainda vigora em algumas culturas regionais do Brasil e da América do Sul. Trata-se de uma transformação dos mitos populares por obra de modelos mentais dos colonizadores que entendem a diversidade étnica, linguística e de pertencimento apenas como uma soma de comunidades, e não como a integração de simbologias culturais.

Ambas não reconhecem que há séculos essas culturas transfronteiriças compartilham hábitos e costumes entre si, como é o caso das comunidades da Gran Sabana, por exemplo. Situadas ao norte do continente, referenciam o Monte Roraima como a Grande Morada de Makumaima. Já as comunidades do Pampa, ao sul do continente, compartilham o mate (ou chimarrão, feito com erva Ilex paraguariensis) como um símbolo de hospitalidade e diálogo.

É importante destacar que nessas regiões a língua oficial não representa um entrave aos sentimentos de pertencimento. Nelas existe uma floresta de valores simbólicos e mensagens iconográficas que definem a abrangência desses territórios de integração cultural. Boa parte da academia brasileira ainda se debate com a compreensão desses mitos – o gaúcho e o herói sem caráter – e com a legitimidade dos saberes populares, pois está presa à realidade aprendida nos livros e não na práxis (reflexão prática, crítica, histórica e sensível) educadora e libertadora. Para superar esse estágio de reflexão distanciado da práxis será preciso atravessar as fronteiras nacionais e desenterrar o máximo de saberes existentes nas crenças populares e nas culturas ancestrais, mesmo as que possuem fortes influências multiétnicas trazidas de outros continentes.

Sabe-se que Makunaima entrou na vida de Mário de Andrade por meio do livro Do Roraima ao Orenoco, de Theodor Koch-Grünberg, um geógrafo e etnólogo alemão que viajou pela região norte do Brasil, sul da Venezuela e Guiana, entre 1911-1913 (as expedições são narradas, em forma de ficção, no filme O Abraço da Serpente, do diretor colombiano Ciro Guerra, de 2015). Com um olhar europeu de estranhamento, Grünberg diz que conheceu alguns “mitos e lendas em horas de ócio, ao lado da fogueira do acampamento, durante viagens em canoas bamboleantes, quando passávamos por tranquilos trechos fluviais usando as barracas como velas ou sentados nas pedras banhadas por ondas barulhentas das cachoeiras, ou ainda sob as copas exuberantes das árvores da selva virgem”.

Segundo a crença indígena, Makunaima é visto como um demiurgo. É punitivo, mas também é o criador dos animais, dos peixes e dos homens para além das fronteiras nacionais. Segundo os relatos de Grünberg, Makunaima é um “Grande Transformador”. Esse último aspecto talvez tenha despertado o interesse de Mário de Andrade para a construção de seu personagem camaleônico.

No entanto, para os Pemons, as façanhas do Makunaima indígena estão recheadas de histórias reais, cujos acontecimentos são narrados num “tempo de origem”, quando a terra, os homens e os animais assumiram a forma que possuem até os dias de hoje. Uma delas conta que a humanidade recebeu uma triste herança: o mundo atual já não possui a mesma natureza daquele em que se vivia antes do corte da grande árvore da vida. Ou seja, os seres de “agora” distanciaram-se dos homens, perderam a relação que mantinham com a natureza e os mitos. A compressão do tempo aproxima-se do presente, mas é repleta de memórias e de saberes adquiridos pela oralidade dos antepassados. Nessas narrativas, a passagem do tempo não obedece a uma regra formal, e as peripécias de Makunaima transitam de uma aldeia para outra aos pés do Monte Roraima, que simboliza o tronco da grande árvore remanescente de uma grande inundação.

Já o gaúcho/gaucho costuma ser descrito como um homem que possui um código de honra rígido, que é bravo, cantante, vaqueano e galanteador. Desde meados de 1700 existem relatos de cientistas, escritores, comerciantes e viajantes sobre as características deste gaúcho/gaucho, publicados no Uruguai, na Argentina, na França e na Inglaterra. Essa narrativa se propagou no Brasil a partir da segunda metade do século 19, quando o cearense José de Alencar escreveu alguns romances com a nítida intenção de fixar símbolos regionais em busca de uma identidade brasileira, como: O Guarani (1856), O Gaúcho (1870) e O Sertanejo (1875). Mas antes dele, na região do Rio da Prata, escritores argentinos e uruguaios já haviam publicado diversas obras sobre el gaucho que peregrinava a cavalo pela vastidão do Pampa. Em 1820, o poeta uruguaio Bartolomé Hidalgo escreveu Cielitos gauchescos. Em 1843, o poeta argentino Hilario Ascasubi publicou El gaucho Jacinto Cielo, e Domingo Faustino Sarmiento, também argentino, lançou Facundo: civilização e barbárie. Em 1866, outro escritor argentino, Estanislao Del Campo publicou a primeira versão de El Fausto Criollo, baseado na obra de Goethe, e José Hernandez escreveu o épico Martín Fierro, publicado em Buenos Aires em 1872.

Depois, na primeira metade do século 20, diversos escritores da região do Prata descreveram esse mesmo gaúcho/gaúcho, mas agora desafiado pelo processo de industrialização das cidades. Embora pouco lidos, os contos do argentino Jorge Luis Borges e os romances dos brasileiros Cyro Martins, Erico Veríssimo e Josué Guimarães tornaram-se referências do novo período regional e literário. Nessas obras da literatura gauchesca (assim chamada no Uruguai e na Argentina) está revelado um criollismo urbano, muito comum na periferia das cidades (en las orillas del campo), onde a valentia suburbana (representada pelo personagem do compadrito) ainda está viva. Em todas elas, o passado está presente na memória, mas foi totalmente atualizado no contexto das pessoas e das novas cidades, onde a vida apresenta mais contradições, inquietações e desconfortos.

Conhecer as origens das mitologias del gaucho e de Makunaina é importante, pois ambas revelam sínteses de uma percepção de realidade transfronteiriça complexa. As comunidades que conhecem a profundidade desses dois mitos assimilam o conceito de alteridade com maior facilidade, pois o Outro (o diferente) faz parte da sua cultura e possui uma história em comum. Além disso, a curiosidade sobre a cultura do Outro expõe contradições menos líquidas, saberes comuns, estereótipos, magias e também a possibilidade de convivência pacífica entre os diferentes.

Por um lado, é preciso reconhecer que o Makunaima original é um mito que faz parte de uma cosmovisão de mundo que o escritor cubano Alejo Carpentier chamou de o “real maravilhoso”. Já o gaúcho/gaucho é um personagem real, mitificado nos três países. Por outro, que ambos foram reduzidos para servir e sustentar projetos nacionalistas (regional nacionalista, no caso dos gaúchos). A epopeia de Makunaima,por exemplo, forneceu a ideia literária do livro de Mário de Andrade, mas foi transformada naquele herói brasileiro “sem nenhum caráter”. Deste modo, o mito do “napë” (homem branco) acabou cumprindo um papel irônico e também pejorativo em relação às culturas indígenas, rurais e urbanas. Já o mito reinventado do gaúcho sul rio-grandense ficou preso a um passado pastoril do século 19. Acabou se tornando uma vítima do crescimento urbano desordenado, saudoso das guerras contra nuestros hermanos e/ou do trabalho sazonal nas fazendas.

Apesar de os livros escolares citarem os gaúchos e os indígenas como importantes na formação da cultura nacional brasileira, persiste um total desconhecimento da transculturação e interculturação que se formou no continente, principalmente em relação às influências indígenas e de matriz africana. Para esse olhar colonizado/colonizador os povos indígenas e os de matriz africana são os “outros”, os diferentes, cujas culturas foram silenciadas, mas que estão apenas reivindicando os seus espaços nas diferentes áreas e narrativas culturais.  Nas áreas metropolitanas, então, percebe-se uma fragmentação das manifestações culturais, e o sentimento de pertencimento a uma comunidade única, orgânica e diversificada quase não existe.

Cabe aos sul-americanos refletir sobre essas questões para que os significados mais profundos das fronteiras culturais sejam revelados nas suas subjetividades. No entanto, para que isso aconteça, será preciso superar o olhar “de fora” e compreender como os indivíduos e as comunidades transculturais se reconhecem e são reconhecidas. Essa realidade é racional e, ao mesmo tempo, simbólica, pois está orientada pelos mitos, lendas e toponímias das regiões (nomes dos rios, dos biomas e dos acidentes geográficos). O problema é que as culturas com viés nacionalista, que ainda são hegemônicas, não conseguem traduzir e reconhecer essas singularidades culturais, e que a maioria das pessoas sequer parou para pensar que Nuestra América não é somente latina.

[1] Durante as minhas viagens pelas fronteiras do Brasil com os demais países da América do Sul, mantive contato com membros das etnias Makuxi e Taurepang. Segundo pesquisadores do Instituto Insikiran de Formação Superior Indígena, da Universidade Federal de Roraima, além delas, os Patamona, Ingaricó e Wapichana  também tem Makunaima na sua cosmologia. Até este momento, eu não consegui confirmar se os Maku – na fronteira com a Colômbia – e outras etnias transfronteiriças compartilham dessa mesma crença. (originalmente no Sul 21)

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Ricardo Almeida é Consultor em Gestão de Projetos e uso de tecnologias da Informação e da Comunicação.

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