O JORNAL NACIONAL DE HOJE (ontem) E A CIVILIZAÇÃO (Pedro Moacyr Pérez da Silveira)

 

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Zé Dirceu foi mostrado no Jornal Nacional de hoje à noite dançando em meio a mesinhas postas em uma espécie de pátio; ou na parte externa de um modesto salão de festas, não sei. A apresentadora anunciou que “Zé Dirceu, condenado pela justiça por corrupção, foi gravado em vídeo dançando em uma festa”, enquanto mostrava imagens do ex-ministro sambando. Após, fez considerações sobre as razões jurídicas que o levaram ao encarceramento e mostrou imagens do juiz Moro, que apareceu com ínclita aparência, simbolizando talvez as falecentes reservas morais do país. Ao final da reportagem, em duas ou três frases, a apresentadora informou que “apesar de ele estar dançando, não havia ilegalidade no ato, pois decisões judiciais lhe haviam permitido o cumprimento da pena fora do presídio, mediante o uso de tornozeleiras eletrônicas”. A simbologia do que fora apresentado, contudo, já estava feita. Era como se devêssemos compreender que, no Brasil, condenados sambam alegres, “dando bananas” ao povo, propiciando entender-se que ele, o povo, estava sendo desrespeitado. A simbologia mais profunda igualmente se fez presente: o amigo de Lula, que juntamente com ele deveria estar amargando no cárcere seus dias terminais, estava sambando, e nele se deveria pressupor uma inaceitável felicidade.
Não sou de comentar noticiários televisivos no Facebook, talvez vejam isso em minhas publicações por aqui. Dessa vez, porém, fiquei muito inquieto com o que vi, e fui procurar, internet afora, a razão da festa em que Zé Dirceu estava. Encontrei-a: o condenado dançava com sua mulher por ocasião…do aniversário dela!
Não vou tecer considerações sobre outras personalidades políticas e o velho assunto da “seletividade” (judiciária e noticiosa), em especial porque estou cansado dessa dualidade esquizoide que entre nós todos grassa, mas a mídia empresarial como um todo (provavelmente, em especial o canal a que eu assistia) é de fato, em grandíssima parte, responsável pela fomentação de uma extrema direita feroz, que a nada enxerga e que nada argumenta. Veja-se que nesse caso a lei está sendo cumprida, mas a incitação a um estado anímico de reprovação emocional se mostra uma barbaridade. O resultado repetido dessas compreensões formais conduz, inequivocamente, à morte da política enquanto arte do diálogo e ao surgimento da irracionalidade.
Não digo isso pelo Lula – o que dele penso, sabem todos. Não digo isso em favor de vinculações minhas ao que parecem ainda ser ideias de esquerda – meus agrados com a tipologia desse pensamento político são igualmente públicos. Digo isso em nome da civilidade, da mantença de uma sensatez mínima, da garantia de direitos adequadamente exercidos. Não podemos ser contra a felicidade de um réu condenado. Não podemos pretender também condenar a intimidade das pessoas e seus humores, negando a infratores inculpados a hipótese de contentamentos. Não podemos ser contrários à celebração, juridicamente autorizada, do aniversário de sua esposa. Não podemos, a rigor, ser contra a felicidade de ninguém, seja lá em que condições esse alguém consiga, por seus modos, ser feliz. E não podemos, talvez acima de tudo, admitir que uma notícia de alcance nacional não seja ela mesma, mas outra; que não seja a notícia expressa, mas a intuível, e que isso advenha de uma engenharia mental de propósitos não confessáveis, mas conscientes.
E o que digo aqui, que serve indiretamente ao PT e ao Lula, desejo sirva também para qualquer outro indivíduo, vinculado a qualquer agremiação e a qualquer pelagem de visão de mundo. Vivemos um tempo em que, antes de defesas partidárias e ideológicas, talvez devamos lutar precipuamente por assuntos quase que puramente filosóficos e psicológicos: a razão organizada e a sensibilidade orientada. Depois – apenas depois desse enfrentamento -, deveremos, quem sabe, pensarmo-nos como um país que se deva conduzir por ideários e modelos administrativos propriamente ditos. Cresce-me a convicção de que experimentamos, nesse momento, vivências pré-iluministas, com um messianismo às avessas. O próximo passo pode implicar a tomada do poder estruturalmente político por parte de mentes bestiais e de corações sem transigência.

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